Búzios

A instalação da Armação das Baleias dos Búzios

Armação das Baleias dos Búzios

A instalação da Armação das Baleias dos Búzios sofreu entraves em função da luta secular pela posse da península: requerimento contra a escolha do sitio, bloqueio da estrada de acesso a Cabo Frio, boato tenebroso sobre iminente ataque indígena e recusa na venda de mantimentos a preços locais, prejudicavam o ritmo de construção das benfeitorias, em 1729. As principais obras levantadas com o emprego de operários escravos foram: engenho de frigir, reservatórios de óleo, armazéns, oficinas, cais, rampas, paredões, alojamentos e senzalas.

É provável que as safras de baleias durante os primeiros 10 anos de operação tenham sido excelentes. Tanto assim que, o novo contratador Brás de Pina, cuja gestão estendeu—se até pelo menos 1748, ampliou a armação e fundou a Capela de Sant’ Anna em 1740. O edifício religioso foi localizado no topo de uma ponta elevada, entre a praia do Marimbondo e a praia fronteira ao porto, ambas, a serviço da armação.

O padre desempenhava papel fundamental . Encarregava—se dos ofícios religiosos e procurava atenuar os terríveis efeitos da escravidão: oferecia o reino dos céus em troca de bom comportamento no trabalho. Ao desembarcar no porto de Búzios, o escravo africano – homens ou poucas mulheres — era logo batizado na capela e recebia um nome cristão. O raro casamento entre escravos também era abençoado pelo padre. Ao morrer, encomendava—se missa de corpo presente e enterrava—se o escravo no cemitério atrás da capela, registrando—lhe o óbito e com direito a duas outras celebrações religiosas em sufrágio de sua alma.

A Festa de Sant’ Anna

A abertura oficial da temporada das baleias na Armação dos Búzios iniciava—se no dia 26 de julho, durante a Festa de Sant’ Anna, quando o padre rezava missa solene na Capela, rogava por uma safra abundante e abençoava arpões, lanchas e baleeiras. Ao longo dos próximos três meses, os vigias observavam diariamente o mar. Ao surgir o esguicho característico da baleia, o padre era avisado e tangia o sino da torre, os tambores rufavam e baleeiros partiam rápidos nas suas lanchas (a vela e a remo) para caçar a cobiçada presa.
Após arpoada, rebocava—se a baleia semi—morta até a “Ponta da Matadeira” para acabar com a vida do animal e arrancar suas barbatanas. A seguir, era levada a enseada da armação, onde arranjava—se um cabo em volta de sua carcaça para puxá-la até a praia, com ajuda de cabrestantes e guindastes. Na próxima etapa, a baleia era içada fora d ‘ agua e virada, dando inicio ao “desmancho”: primeiro, retirava—se o toucinho que era enviado a fabrica de beneficiamento; depois, derretida a banha e apurado o óleo, canalizava—se o produto até os reservatórios de pedra na “casa dos tanques”; e, finalmente, transportava—se o esqueleto para ser enterrado na praia vizinha, que , por essa razão, passou a ser chamada “dos Ossos”.

No encerramento da temporada de pesca, chegavam os navios do Rio de Janeiro que traziam mercadorias para manutenção da armação e os barris de madeira para acondicionamento do óleo a ser distribuído por todas as capitanias e exportado para Portugal. A partir dai , os homens livres, quase sempre tripulantes e arpoadores das lanchas, eram dispensados.
O numeroso grupo de escravos da armação voltava—se às tarefas de conservação da fabrica, dos tanques, das outras edificações e dos equipamentos marítimos, além de cortar e armazenar enorme quantidade de lenha para o “engenho de frigir”, necessária no momento que o fogo voltasse a ser aceso durante o inverno seguinte.

Em 1765, na vigência do contrato de arrendamento firmado por Inácio Pedro Quitela, a Armação das Baleias dos Buzios tinha quatro lanchas de arpoar e três de socorro com a capacidade de oito tripulantes cada uma, e que não navegavam alem de quatro leguas da costa. Segundo o relato de Baltazar dos Reis, sócio de Quintela em Búzios, a armação parou de funcionar em 1768, “por ser a Costa do Mar mto. braba (…) e não poderem chegar a praya as embarcações com os peixes sem grande dificuldade, de que rezultava para o contratto mayor despesa que o lucro”.
Uma outra e mais poderosa razão não levantada neste documento, para o fim das operações da Armação dos Búzios, refere—se a escassez de baleias pela pesca inovadora dos veleiros norte—americanos próximos a costa brasileira.
Tratavam—se de verdadeiros navios-fabricas , que realizavam longos cruzeiros de reabastecimento e obtinham safras excepcionais, estando aparelhados com caldeiras e fornalhas para apuração do óleo e do esparmacete, enquanto permaneciam pescando. Utilizavam—se dos portos brasileiros sob os mais variados pretextos até mesmo para contrabando de pau—brasil em Búzios, acobertados pela conivência das autoridades locais.
Em 1799, a Armação dos Búzios já estava completamente abandonada e arruinada. Três anos depois, poderosos homens de negócio do Rio de Janeiro interessaram—se em arrendar as antigas feitorias baleeiras e apresentaram alternativas modernizantes para recuperar essa atividade econômica no Brasil .
Os projetos tinham em comum conservar as armações sedentárias, inclusive a de Búzios, e lançar a pescaria volante em alto—mar.
Quando o governo português anunciou o resultado do arrendamento do monopólio, dois anos depois o negócio já não interessava a ninguém!

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