Prédios históricos

Casa de Caridade – Charitas – Parte 2

casa de caridade Charitas

As obras foram reiniciadas com o auxílio da Assembleia Provincial e da Câmara Municipal, que repassaram uma doação de quatro conto de réis para conclusão do edifício. A inauguração da parte relativa aos expostos ocorreu em 16 de fevereiro de 1840.

Durante os dois anos iniciais de funcionamento, a Charitas abrigou 18 expostos. A mãe anônima e pobre, protegida pela escuridão da noite, subia os degraus da Charitas, aproximava-se da porta, tocava uma sineta e colocava o filho na “roda” enquanto a “matrona’ no interior da casa movimentava a caixa giratória e recolhia o recém-nascido para os primeiros cuidados.

Seguiu-se a construção da capela, sacristia e enfermaria, que ficaram prontas em 1841. A imagem da Santa Izabel foi doada por Joaquim Ignácio Garcia Terra e posta no altar mandado construir por Maria Dolores Lages em 1842. A enfermaria destinava-se ao atendimento médico dos doentes pobres e tinha uma sala com quatro camas.

O médico do partido da Câmara Municipal era responsável pelo internamento e tratamento dos indigentes, havendo notícias até de ter salvo as vidas dos escravos africanos desembarcados clandestinamente e que se aprisionaram na Praia do Peró, na segunda metade do século XIX.

Até 1938, a Charitas recebeu crianças enjeitadas e atendeu doentes pobres. Desde então, novos usos foram dados ao imóvel principal: quartel do exército, escola pública, fórum de justiça e biblioteca municipal. Mais recentemente, abrigou a Casa da Cultura da Prefeitura de Cabo Frio, subdividida em biblioteca, museu de arte e Departamento de Cultura. A antiga enfermaria passou a ser ocupada como residência do Capelão que guardava o arquivo da Irmandade de Santa Isabel, e, depois pela S—8 (organização não-governamental/ recuperação de drogados).

Em 1978, a Charitas foi tombada pelo INEPAC – Instituto Municipal do Patrimônio Cultural, e quatro anos mais tarde, pelo IMUPAC – Instituto Municipal do Patrimônio Cultural, durante a primeira administração do Prefeito Jose Bonifácio Ferreira Novellino.

Em 1989, novamente, foi tombada pelo IMUPAC, durante a administração do Prefeito Ivo Ferreira Saldanha, por haver dúvida jurídica relativa a publicação do texto legal anterior.
A restauração contemporânea da Charitas ocorreu na primeira administração do Prefeito José Bonifácio Ferreira , Novellino, em 1981.

A falta de manutenção do prédio durante os dois governos municipais passados arruinou a restauração promovida. A Charitas achava-se em deplorável estado de conservação no inicio da segunda administração do Prefeito Jose Bonifácio Ferreira Novellino, em janeiro de 1993. Os problemas mais graves estavam no telhado com infiltrações generalizadas e no madeiramento de sustentação apodrecido.
Dois laudos técnicos (1990 e 1993) atestaram que, a qualquer momento, o telhado poderia ruir e a fiação elétrica pegar fogo.

Em outubro de 1993, a Prefeitura Municipal transferiu os serviços públicos que funcionavam na Charitas para locais mais próximos, inclusive o acervo técnico do Museu de Arte que já se encontrava fechado a época e interditou o prédio principal.

O relatório do juiz da Irmandade, Dr. Jose Augusto Gomes de Menezes, também Juiz de Direitos da Comarca, prestando contas de sua administração a frente da Charitas em 1842, recorda a difícil criação da casa e a força coletiva que surgiu para impulsiona-la: “Todas as coisas para que se aumentem e produzam o desejado fruto necessitam de ser cuidadas, o tempo e que as desenvolve e arreiga, e no caminho dos benefícios (…) é necessário marchar com fé e confiança. Aquilo que ao princípio nos parece impossível pela falta de recursos, se nos apresenta logo fácil e fértil de meios. Os sentimentos da humanidade para com o próximo (…) nascem, brotam e deitam raízes em todos os corações; nem os vaivéns da política, nem remoinhos das discórdias locais podem por muito tempo entorpece-los; deixai correr e passar os dias de ilusão e fanatismo e vos vereis que todos os acompanham e se apresentam acordes nesses sentimentos”.

Durante a visita imperial a Cabo Frio em 1843, D. Pedro II foi conhecer as instalações da Charitas na segunda noite da estadia. Conforme se registrou na Ata da Câmara, toda a Irmandade de Santa Isabel esperava o Imperador com velas acesas na mão e “S.M, depois de correr os edifícios da capela dos expostos e da enfermaria, dignou-se a honrar a Irmandade aceitando o título de protetor (…), fazendo o mesmo augusto senhor dar a esmola de oito contos de réis, para benefício da casa, que foram logo entregues pelo seu mordomo”. Em 1868, a Princesa Isabel e o Conde d’Eu também visitaram a Charitas e foram recebidos pela Irmandade.

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