Prédios históricos

Fazenda Campos Novos – A disputa pelas terras

Igreja de Santo Inácio - Companhia de Jesus

Presume-se que libertos da Fazenda Campos Novos e das demais propriedades rurais da região, sem ter para onde ir, a semelhança da ocupação do bairro da Abissínia pelos ex-escravos da Cidade de Cabo Frio, se apossaram de terras na Praia Rasa, em Búzios, e começaram a povoação do mesmo nome cuja origem era explicada, anteriormente, por hipóteses fantasiosas relativas a existência de um quilombo ou ao naufrágio de navio negreiro.

Na metade do século XX, durante a administração do Sr. Eugenio Arnoud, a Fazenda Campos Novos deixou de realizar a tradicional Festa de Santo Inácio que reunia os moradores do Distrito de Tamoios, comprovando a decadência econômica da propriedade. Na década de 50, conforme prossegue o depoimento de D. Rosa, o poder passou as mãos do Sr. Antônio Paterno, conhecido como Marquês. Ele começou a lotear a fazenda pela Reta da Barra, distribuiu terras a grileiros, expandiu a criação de gado e propôs acordo com os antigos lavradores para permanecerem em Campos Novos, dado que pagassem renda mensal.

O ajuste foi fraudado pelo próprio Marquês: obrigou alguns lavradores a assinarem papel em branco, para depois escrever que desistiram da posse das terras. Assim, os lavradores da Boca da Vala e do Gargoá tiveram que ir embora, pressionados pelos jagunços e grileiros, enquanto os moradores de Botafogo e Caveiras permaneceram trabalhando e pagando a renda para o Marquês. Segundo D. Rosa, tratava-se da continuação de “trabalho escravo, pois eram vigiados por capatazes e tinham horário para tudo, não podendo nunca ser desrespeitada uma ordem”.

Trabalhadores Rurais desafiam o Marquês na justiça

Três lavradores se revoltaram e foram expulsos da Fazenda Campos Novos pelos jagunços e grileiros. O Marquês prosseguiu pressionando os outros moradores para que assinassem o papel em branco.
Como não se curvaram, foram colocados sob a mira de armas de fogo e presos por um choque de polícia de Cabo Frio. Ao saírem da cadeia, se reuniram em associação e decidiram não pagar mais a renda ao Marquês. Segundo o depoimento de D. Rosa: “Não brigamos, mas não entregamos a terra. Trabalhamos em grupo para evitar sequestros. O mutirão surgiu naquele momento para resolver a situação. Um grupo trabalhava na roça de um, depois na de outro”.

A comissão organizadora dos lavradores – núcleo embrionário do atual Sindicato de Trabalhadores Rurais – foi formado por cerca de 200 famílias, que moravam entre Botafogo e Caveiras. Os lavradores unidos constituíram advogado, Dr. Edilson Duarte, depositaram a renda reclamada pelo Marquês em juízo e requereram que o suposto dono das terras apresentasse o documento da propriedade comprovando a titularidade. Como a obrigação legal não foi cumprida, o juiz devolveu o depósito aos lavradores, que permaneceram na Fazenda Campos Novos.

No início dos anos 60, a Companhia Agrícola Campos Novos, empresa supostamente proprietária da fazenda, ainda sob a administração do Marquês, vendeu 500 alqueires geométricos a Destilaria Medellin S.A., correspondendo a 25% da sua área total. Tratavam-se das terras denominadas Bahia Formosa, Fazendinha e Emerências, em Búzios, distrito de Cabo Frio. Tempos depois, o Sr. Henrique da Cunha Bueno comprou estas propriedades e vem tentando expulsar os colonos por meios legais ou violentos, desde a década de 70.

A violência da ditadura militar

Foi, também, no início dos anos 60, que o Marquês contratou o temido “Chico Goaquica” para chefe dos jagunços e ampliou a distribuição de terras a grileiros, com o objetivo de expulsar os posseiros.
A resposta dos lavradores foi fundar o Sindicato de Trabalhadores Rurais e empunhar a bandeira da reforma agraria em 1961. A partir daí, começou a perseguição policial, incentivada e apoiada pelos supostos donos, grileiros e jagunços.

No final de abril de 1964, o Marquês entrou ação de reintegração de posse na justiça, denunciando que as terras da Fazenda Campos Novos haviam sido invadidas pelos lavradores durante o golpe militar de 31 de março. Grileiros, jagunços e policiais, em nome da revolução anti-comunista e sob o comando do delegado Péricles Gonçalves, de Cabo Frio, desencadearam uma onda de violência que plantou o terror na área rural. Perseguições, roubos, atentados, prisões, espancamentos e intimações aos lavradores e suas famílias tornaram-se permanentes. O sindicato foi fechado e cooptou—se o presidente através de suborno. Mudaram-se rumos das terras e as cercas das roças foram cortadas para que o gado destruísse plantações. D. Rosa lembra que, até 1964, morava muita gente ali e “era linda a lavoura que tinha nesse lugar”.

A ordem de despejo foi dada em 1965. Mas o advogado dos lavradores, Dr. Hilson Cesar de Oliveira, conseguiu suspende-la no ano seguinte, após comprovar o pagamento anterior da renda ao Marquês. Em 1967 os lavradores ganharam liminar de posse e permaneceram nas suas terras. A vitória durou pouco tempo: em 1968, o Ato Institucional nº 5, da ditadura militar, suspendeu as garantias individuais e estabeleceu a censura.

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