Prédios históricos

O tráfico de escravos em Cabo Frio

Embora as acusações contra os jesuítas nunca fossem comprovadas a memória do povo continuou a lembrar da riqueza que desfrutavam, se comparada a extrema indigência dos escravos que lhes serviam e a pobreza das populações vizinhas. Uma tradição oral recolhida no Distrito de Tamoios, Cabo Frio, relata que, momentos antes da prisão, os jesuítas de Campos Novos, com ajuda de dois escravos, enterraram uma imagem de Santo Inácio de ouro para esconde-la de seus captores, e mataram os auxiliares negros, a fim de não revelarem o sitio do tesouro. Outra tradição refere-se aos perigos e a violência da época dos jesuítas: haveria um túnel que saia da igreja e ia até o curral, para fugas de emergência.

Supõe-se que, após a Independência, a Fazenda Campos Novos foi vendida pelo Governo Imperial e deixou de pertencer ao patrimônio público, embora uma tradição oral afirme que sua escritura pertencia a Santo Inácio, ficando cravada nos pés da imagem do padroeiro e alguém a roubou, daí começando a grilagem das terras. Até meados do século XIX, o estabelecimento rural mais importante de Cabo Frio, embora decadente, manteve—se com relativo prestigio, conforme as referências no livro de Saint—Hilaire. Na fazenda, almoçou e descansou D. Pedro II (e sua comitiva), vindo de Campos a caminho da Cidade de Cabo Frio em 1847, quando foi recebido com vivas de saudações pelo povo e por girandolas que subiram ao ar, encomendadas por seu proprietário, Reverendo Joaquim Gonçalves Porto.

Os quilombos na região de Cabo Frio e Búzios

Entre meados do século XVIII e XIX, há notícias intermitentes sobre fugas de escravos e a existência de quilombos em Cabo Frio. É possível que, parte desses redutos de liberdade negra, se abrigassem nas florestas e pântanos situados nos confins da Fazenda Campos Novos. O antigo latifúndio dos jesuítas media três léguas de testada pelo mar por três léguas em quadra pelo sertão e havia reduzido suas atividades agropecuária em função do esgotamento das lavras mineiras, no final do século XVIII, embora continuasse a exportar farinha de mandioca e madeira-de-lei (vinhático, araubá, cedro, cerejeira, canela, copaíba, pinhoa, sapucaia, peroba, guarabú, maçaranduba, ipê, arco—de—pipa, sucupira, jequiá, apu—ferro, pau-brasil, etc.).

Os portos clandestinos

A repressão ao tráfico de escravos africanos executada por navios ingleses na costa brasileira a partir da Independência, multiplicou os portos clandestinos de desembarque desse comercio infame na região sudeste. Os fazendeiros exigiam novos braços escravos para substituição da cana—de—açúcar pela cultura do café em alta no mercado internacional e que se expandia pela planície litorânea e pelos primeiros contrafortes da serra fluminense. A Fazenda Campos Novos, favorecida pela proximidade dos portos clandestinos da Baia Formosa e de Búzios, como muitas propriedades rurais de Cabo Frio, derrubou florestas e plantou café. Mas, em 1856, teve que construir enfermarias para tratar os doentes de uma epidemia de cólera, provavelmente, trazida pelos africanos desembarcados por navios negreiros.

A proibição imperial ao tráfico transatlântico de escravos em 1860, embora aumentasse o patrulhamento naval na região sudeste brasileira, consolidou os portos clandestinos de desembarque de africanos na Província do Rio de Janeiro (e em Cabo Frio). Os fazendeiros continuaram a exigir novos braços escravos para atender a renovada agro—indústria açucareira, que introduziu usinas a vapor no norte fluminense, e ao vigoroso desenvolvimento da cultura cafeeira na serra. A decadência da monocultura do café na planície litorânea estagnou muitas fazendas de Cabo Frio, a ponto de faltar farinha de mandioca para consumo e obrigando sua importação do Rio de Janeiro para atender ao clamor público.

Mas não faltaram africanos: os portos clandestinos da praia de José Gonçalves, em Búzios, e do “desemboque” na Rasa, junto a ponta do Pai Vitorio, mantiveram-se ativos. Presume-se que, a recuperação física dos rigores enfrentados durante a navegação, o transporte terrestre e a venda final dos escravos não seriam possíveis sem a intermediação dos proprietários da Fazenda Campos Novos.

Em 1888, a Lei Aurea aboliu a escravidão no Brasil. A Fazenda Campos Novos adaptou—se a nova situação econômica-social transformando a maioria das suas áreas cultiváveis em pasto para gado e incentivando muitos libertos a permaneceram nas áreas de Gargoá, Boca da Vala, Botafogo e Caveiras, como lavradores de mandioca.

Segunda o depoimento de uma descendente destes negros Bantos, D. Rosa Geralda da Silveira, “todos ficaram livres, mas fazendo um trabalha escravo”, embora depois, alguns conseguissem fugir dos “supostos donos” da fazenda, Sr. Silvio e Sr. Fritz.

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