Armação dos Búzios - Geografia II

A oceanografia regional está condicionada pela corrente do Brasil que se desloca paralela à costa do país e dela se afasta 120 a 150 milhas. Suas águas quentes mantém velocidade de 0,5 a 1,0 nó e orientação nordeste­ sudoeste, a partir das proximidades do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul. No trecho litorâneo compreendido entre os arrecifes dos Abrolhos (BA) e a ilha de Cabo Frio (RJ), não atuam as monções - correntes movidas pelo sistema de direção periódica dos ventos. O mar fronteiro à Armação dos Búzios apresenta-se quase sempre cristalino, embora seja mais transparente na costa sudoeste do município, apesar da pequena turbidez e do rebaixamento de temperatura ocasionais gerados pelo fenômeno intermitente da ressurgência que determina a proliferação sucessiva de fitoplanctons e zooplanctons. O mar toma-se menos cristalino e apresenta temperatura mais elevada a noroeste da ponta dos Búzios, onde ocorrem as vazões das águas quentes, ricas em micro-nutrientes de origem vegetal e com sedimentos arenosos-argilosos das embocaduras dos rios Una e São João, que carreiam a isóbata de 50 metros para longe da baía Formosa. As amplitudes das marés em Armação dos Búzios variam de pouco mais de um metro no inverno a pouco menos de um metro no verão. Mas, a associação das tempestades de sudoeste e chuvas intensas com marés de sizígia - que se seguem aos dias de lua nova ou cheia - podem abrir barras provisórias e causar transbordamentos nas pequenas lagoas ou brejais próximos à orla durante a preamar, além de inundação nas margens das embocaduras dos rios durante o fluxo da maré. Esta energia , que era capaz de ligar o oceano com a lagoa de Geribá ou com o brejal atrás das praias Rasa e de Manguinhos, continua ainda hoje realizando o trabalho mecânico de desgaste litorâneo, cujos exemplos mais significativos estão nas praias do Peró, de José Gonçalves e Brava, onde se pode observar os perfis erosivos de pequenas falésias, algumas vezes, com exposição do substrato.

Mas, a oceanografia regional também está fortemente condicionada pelo fenômeno da ressurgência. Junto à ilha de Cabo Frio - ponto de inflexão extrema do litoral sudeste brasileiro -, ocorre uma mudança no perfil da plataforma continental que traz a isóbata de 100 metros para perto da costa e rebaixa a zona nerítica para profundidades variáveis entre 100 e 200 metros. Esta depressão favorece o fenômeno da ressurgência - afloramento da corrente submarina proveniente das ilhas Malvinas (Inglaterra/Argentina), situadas ao norte da península Antártica. O regime dos ventos e a prevalência da movimentação de ar do quadrante nordeste, em última análise, determinam a distribuição da massa de água superficial para o largo e provocam a ascensão da água mais profunda (cerca de 300 metros, 14°C e 35,50o/o de salinidade). As frentes frias que vem do sul impulsionadas pelo vento sudoeste causam efeito contrário e promovem a lenta descida da água superficial mais quente, embora permaneça sempre uma camada fria no fundo da plataforma. A maior intensidade do fenômeno se manifesta ao redor do Arraial do Cabo, se bem que seus efeitos médios alcancem, por um lado, Cabo Frio e Armação dos Búzios, por outro, Saquarema e Maricá, enquanto seus efeitos menores podem atingir Campos a nordeste e Rio de Janeiro a oeste. Ao emergir, a corrente traz à tona teores de sais nutrientes em quantidades até 1O vezes acima do contido na água superficial. Estes elementos minerais fertilizam os mares costeiros da região, nutrem os fitoplanctons que sustentam os zooplanctons, e, sucessivamente, atraem espécies cada vez mais complexas, formadoras da chamada cadeia alimentar marinha. O adubamento realizado pelos sais da ressurgência não só resulta na abundância e na diversidade das espécies que vão desde algas até mamíferos cetáceos, mas, igualmente, auxilia o crescimento de grandes bancos de moluscos e ainda é responsável pelo estabelecimento exclusivo de duas colônias de coral na costa sudeste brasileira, uma em Armação dos Búzios e uma no Arraial do Cabo. A associação dos sais da ressurgência, dos micros-nutrientes de origem vegetal despejadas pelas vazões arenosas - argilosas das embocaduras dos rios Una e São João, da rasa plataforma continental que permite a penetração dos raios solares e do abrigo fornecido pelos paredões continentais, ilhas, ilhotas e lajes geraram um singular criadouro de moluscos gastrópodes na enseada formada entre as praias de Manguinhos e Azedinha. Suas carapaças vazias entulhavam-se à beira-mar e responderam pelo nome de batismo português da ponta dos Búzios.

Entre a numerosa e rica fauna marítima de Armação dos Búzios, destacam-se o mexilhão, a ostra, diversas espécies de caracois espiralados ou piramidais, a lagosta, o linguado, a tainha-verdadeira, a sardinha maromba grande, o bonito-cachorro, o badejo, o pargo, o mero, a enxova, a garopa, o parati, a ubarana, o golfinho, várias famílias de cação e tubarão - das quais a mais temível é a tintureira - e ocasionais baleias franca e jubarte, além dos peixes que são encontrados longe da costa como o dourado, o atum e o marlim . As denominações de duas praias - Tartaruga e Foca - recordam a estadia breve de outros animais de origem oceânica. A primeira seria o sítio de desova de três possíveis espécies de quelônios: a tartaruga verdadeira ou de pente, a tartaruga do mar e a última sem batismo popular. A segunda praia assinalaria um dos pontos de chegada involuntária da fauna antártica na região. A princípio focas, pinguins e lobos marinhos são levados sobre imensos blocos de gelo que se desprendem do continente austral, mas se derretem no caminho e obrigam esses animais a desenvolver externante esforço natatório até a costa brasileira, com alguma ajuda do vento sudoeste. A fauna aquática dos rios, lagos, pântanos e brejos, afora as tainhas e os outros peixes do mar que penetram em águas salobras, estava bem resentada pelo cascudo, morobá, acará, bagre, piau, piabanha, cumbaca e traíra, todos de águas doces, além dos caranguejos das margens da foz do rio Una e de determinadas espécies de caramujos.

A flora destes ambientes de mata Atlântica varia em função dos diferentes tipos de solo e está condicionada pelo micro-clima semi-árido quente. A planície litorânea arenosa apresenta uma vegetação característica de restinga, com plantas rasteiras de longas raízes junto à praia, embora adiante situem-se formações arbustivas isoladas e depois cada vez mais densas comecem a ganhar altura. As terras elevadas e íngremes à beira-mar mostram uma vegetação baixa dominada por gramíneas, cactos e bromélias, enquanto costa a dentro, as faces internas e menos expostas das elevações litorâneas, as colinas e o interior da planície arenosa, protegidas contra o vento nordeste e sudoeste, revelam ambientes tipicamente florestais, cujo docel atingia até 20 metros. Apesar deste aspecto ser predominante, tais matas formavam uma cobertura contínua e mostravam uma diversidade fisionômica que ia desde arbustiva até arbórea. As plantas têm folhas duras e de consistência semelhante ao couro. Muitas não se mantém verdes durante a estação seca e assumem uma tonalidade puxada a cinza ou chegam a perder as folhas. Contudo, a florescência que acontece de outubro a maio ponteia a monótona coloração da cobertura florestal ou dos arbustos mais baixos com cores vibrantes, a exemplo dos cachos amarelos do pau-brasil e dos lindíssimos brancos, roxos ou amarelos dos ipês.

Entre as espécies arbóreas, segundo estudos botânicos recentes, predominam o pau-sangue, o pequiá, a aroeira e o cambuí, apesar dos registros de ocorrências raras de pau-brasil, pau-ferro, sibipiruna e copaíba, além da presença do grande cardo arborescente e de orquídeas epífitas, que dão um tom especial à :fisionomia de certos lugares. Entretanto, as fontes históricas disponíveis sobre a região apontam que estes ambientes florestais eram áreas de ocorrências de várias outras espécies: vinhático, araribá, cedro, caixeta, canela, sapucaia, tapinhoã, peroba branca, peroba vermelha, cabiuna, jacarandá, guará, guarabu, massaranduba, arco de pipa, goratá, gorapiapunha, óleo vermelho, sucupira, óleo pardo, oiti, marendiba, tatagiba. Ainda, segundo as mesmas fontes históricas, nas matas de restinga, abundavam o louro, a iricurana, o angelim e o caubim, embora, igualmente, houvesse frequência considerável de folha-miúda, jacaré, murici, dor-de­ cabeça, obatá, sapotiana, cotia, abaneiro, imbaíba, bapuana, rosário, canela, guiné, camboatá, folha-larga, figueira e guapebeira. Nas margens embrejadas e pantanosas, prevalece a cana-do-brejo ou pirina, enquanto a tiririca reina quase absoluta dentro dessas águas salobras. Da enorme variedade de frutos comestíveis, sobressaem-se a abundante pitanga-vermelha e a mais rara pitanga preta, o caju, o araçá, o coquinho­ guriri, o coquinho do geribá, o cambuí, a amora, o ingá, o cambucá, a gabiroba e o pequenino abacaxi de um gravatá. Mas, tambem, há a guapeba­ de-leite, diminuta e vermelha, a doce e preta aperta-a-boca, a fruta banana ou costela-de-adão, a bacupari e a pitangobaia que parece uma carambola. Entre as plantas medicinais, afora a cana-do-brejo, a aroeira e o pau-brasil mencionados antes, distinguem-se a erva-de-santa-maria, a erva-capitão, o cipó-imbé, o cipó-una, o cipó-caboclo, o cipó-chuva, o bromil, o milome, a jupirana e a jindirana.

A fauna destes ambientes de mata Atlântica era tão numerosa e rica quanto à própria flora: onça pintada, onça preta ou jaguaruna, gato-do-mato, cachorro-do-mato, veado-mateiro, veado-catingueiro, tatu, tamanduá, preguiça, anta, paca, gambá, quati, preá, rato-do-mato e muitas espécies de macacos, desde o pequeno mico-leão dourado até o enorme muriqui. Entre os répteis, além da presença abundante do jacaré de papo amarelo, do tejuaçu, do camaleão-ferro, do carango verde, do carango-deu e da lagartixa da praia, havia uma quantidade impressionante de serpentes como a jararaca-dorminhoca, a jararaca-do-campo, a jaracuçu-tapete, a jaracuçu cabeça-de­ sapo, a cobra papa-pinto, a cobra-verde, a cobre-facão, a cobra coral, a arareô, a sururucutinga, a surucuçu-vara, a morubá e a enorme giboia que pode chegar até cinco metros de comprimento. Entre os anuros, o sapo cururu, o sapo intanha, as pererecas e rãs de diversas espécies são os destaques. Entre os quelônios, havia o cágado de pescoço comprido e o jaboti. E, entre os insetos, o marimbondo-tatu que constrói seus ninhos presos a cactos ou árvores, muitas vezes à beira-mar, o marimbondo­ caçador, grande e solitário, o vunvum e duas espécies de abelhas produtoras de mel, todos de picada dolorosa. Ocorre, igualmente, a perigosa aranha viúva-negra, o gafanhoto gigante, a cigarra, o vagalume, o cupim, duas raras borboletas de cores cinza e amarela, a formiga saúva, a pequena formiga ruiva e a menor ainda formiga preta, o bicho-de-pé e nuvens de diferentes espécies de mosquitos.

Mas as aves constituíam um grandioso espetáculo à parte. Na mata fechada, vigorava o som da passarinhada: tiê-sangue, sanhaço, rendeira, pintassilva, flamengo, canário da terra, beija-flor-do-mato, azulão, pica-pau de cabeça vermelha, anum preto, anum branco, sabiá-da-praia, quero-quero, juriti, pomba-trocal, pomba-saroba, pomba-jogo, pomba-gemedeira, socó­ boi, viuvinha, bico-de-lacre, saíra, araponga, rabilonga, jacu, bibi, caga-sebo, melro, manequita, com-com, maria-acordai-que-é-dia, bem-te-vi e gaturana vim-vim. Nas lagoas, viviam a marreca, a pata-d'agua o pato-do-mato, a picaparra, a piaçoca, a garça branca pequena, a garça branca grande e a garça azul, afora as aves de arribação que faziam estadias mais ou menos prolongadas durante seus voos migratórios. O brejo era o ambiente do três­ vintens tambem conhecido como saracura. No chão das matas, habitavam o jacu, o macuco, o inhambu-carijó e o inhambu-tiroli. A coruja-boi era a rainha da noite, junto com o morcego frutífero da ordem dos mamíferos, enquanto a coruja-burraqueira apresenta estranho hábito diurno.

Entre as aves mergulhadoras de água doce, destacavam-se o mergulhão grande e o mergulhão pequeno. E, entre as aves que nidificavam ou ainda nidificam nas ilhas do arquipélago oceânico fronteiro ou nos pontos mais altos das elevações litorâneas, distinguem-se o atobá, a tesoura, a gaivota (rapineira), a gaivota branca-acinzentada comum, o gaivotão, o martim-pescador e o trinta-réis. No alto do céu, voam bandos de urubus­ pretos à procura de carniça, mas o solitário urubu-rei, embora possa participar do banquete, prefere comer o animal morto antes que a carne entre em decomposição. Logo abaixo ou a partir de pontos elevados nos morros, diversas espécies de gaviões fazem mergulhos rasantes para apanhar a caça em pleno voo, na terra ou na água. Porém, o pássaro mais encantador de toda a região sudeste brasileira era o guará, com bico comprido e penas vermelhas-carmesins. Os bandos nidificavam na praia de Manguinhos e nas árvores dos mangues às margens da foz do rio Una.