Pré-história - Armação dos Búzios

O resumo do ensaio preliminar sobre os aspectos pré-históricos dominantes em Armação dos Búzios se inicia pela revelação de possíveis, mas até agora indemonstráveis sítios arqueológicos com datações superiores há 8.000 anos, que hoje estariam submersos na plataforma continental fronteira. A seguir, descreve o processo de ocupação humana da costa regional por sucessivos bandos nômades entre 5.500 e 1.500 anos atrás, embora se presuma que os "sambaquis" mais antigos de Armação dos Búzios tenham idade estimada em mais ou menos 2.500 anos. Estes pequenos grupos pioneiros de famílias aparentadas, cuja economia baseava-se na coleta, pesca e caça, acampavam junto aos bancos de moluscos do litoral e permaneciam até quase o esgotamento dessa fonte alimentar rica em proteínas. Depois, levantavam acampamento, embarcavam em pequenas canoas e iam à procura de trechos costeiros intactos ou recuperados com características biológicas semelhantes.

A exemplo do "sambaqui" de Geribá e de outros no município, a "lixeira" do solo do acampamento acumulava numerosas carapaças de conchas e vestígios de peixes, aves, mamíferos e répteis de pequeno porte, além de artefatos e adornos iniciados ou semi-acabados, de pedra, concha, dente e osso. As escavações arqueológicas também revelaram os restos de estacas do abrigo coletivo, a presença de carvões de fogueira e de fortuitos enterramentos rituais indicadores da crença na vida após a morte e, talvez, da estadia relativamente longa desses bandos nômades. Mas, é possível que o repertório cultural dos "sambaquis" fosse mais rico, em função da água infiltrada nessas jazidas que destruiria os artefatos de natureza vegetal pouco duráveis (como redes, cestos, esteiras, remos, arcos e flechas), ao contrário dos sítios semelhantes encontrados nas costas americanas de clima árido que os conservaram.

Há cerca de 1.500 anos, aguerridos grupos semi-nômades, cuja economia se fundamentava na horticultura, pesca, caça e coleta, começaram a ocupar a baixada litorânea fluminense a leste da baía da Guanabara, segundo demonstram as datações de sua aldeia mais antiga no município de Araruama. Outras três aldeias e mais dois acampamento de pesca e coleta de moluscos - com tradições cerâmicas diferentes - foram também descobertos e pesquisados nos municípios vizinhos, apesar de nenhum desses sítios estar em Armação dos Búzios. Os restos arqueológicos de origem tupi-guarani evidenciam uma adaptação bem mais eficaz ao meio ambiente regional do que a dos bandos nômades pioneiros, em função da tecnologia numérica e formalmente superior usada pelos adventícios. Entretanto, a presença de cacos de cerâmica tupi-guarani na superfície da maioria dos "sambaquis" de Armação dos Búzios não deixa de ser instigante. Se, por um lado, correto sob o ponto de vista científico atual dos arqueólogos, seriam apenas os vestígios culturais resultantes da ocupação seqüencial dos antigos acampamentos litorâneos pelos adventícios, por outro lado, sugerem uma suposta evolução tecnológica dos bandos pioneiros formadores dos "sambaquis", confirmativa do mito Tupinambá - conforme se autodenominavam os descendentes dos grupos semi-nômades no período histórico -, a respeito da antiqüíssima penetração das famílias irmãs tupi e guarani pela baía Formosa, quando essas terras e matas só eram então senhoreadas pelas feras.

No início do século XVI, os grupos locais Tupinambá dominavam a grande extensão territorial litorânea que ia do rio Macaé (RJ) até llhabela (SP), e ocupavam apenas um trecho interior junto à nascente do rio Paraíba do Sul (SP). A baixada litorânea fluminense a leste da Guanabara era densamente povoada e abrigava mais da metade do número das aldeias Tupinambá na região sudeste brasileiro. A terra era chamada pelos índios de Gecay - único tempero da cozinha nativa, feito pelo trituramento de sal grosso natural da lagoa de Araruama e de pimentas vermelhas gigantes cultivadas. O sítio sagrado ficava no Itajuru - morro junto ao canal da laguna, na restinga de Cabo Frio -, onde estavam as grandes pedras com sulcos que recebiam veneração dos índios. Eram seus heróis-feiticeiros ancestrais que subiram ao céu depois da morte, transformaram-se em estrelas e mais tarde desceram à terra sob a forma de pedras sagradas, a fim de serem lembrados e imitados pela humanidade porque representavam modelos de conduta exemplar.

As aldeias Tupinambá da região localizavam-se nos terrenos continentais próximos dos rios que asseguravam o suprimento de água potável. A certa distância abriam clareiras na floresta onde cultivavam roças de mandioca, feijão, milho e outros gêneros alimentícios, além de plantas medicinais. Os acampamentos de caça e de coleta de frutos ou raízes variavam muito de local, em função de diversos fatores, ao passo que os de coleta de sal estavam relacionados a sete pontos fixos na margem da lagoa de Araruama, onde a cristalização natural do cloreto de potássio se processava durante o verão. Os acampamentos de pesca e de coleta de moluscos situavam-se junto aos trechos litorâneos mais abundantes em recursos de origem marinha e há registro documental de que o peixe constituía a base alimentar dos índios Tupinambá.

Possuíam profundo conhecimento da região, com especial destaque à mata Atlântica, o que resultou na domesticação de várias espécies botânicas e na ampla utilização de plantas silvestres, presentes na maioria das atividades econômicas, sociais e culturais da vida indígena cotidiana. Além do emprego do barro na cerâmica, desenvolveram repertório abundante de artefatos e adornos de pedras, ossos, dentes, conchas, madeiras, fibras e penas. Algumas localidades de Armação dos Búzios que mantiveram as denominações originais tupi-guarani, como Geribá ou Tucuns, são exemplares para demonstração do saber indígena sobre o meio ambiente regional. Geribá ou gerivá é uma palmeira comum na área litorânea, alta e elegante, cujos coquinhos doces e nutrientes fazem a festa das crianças e dos adultos. Enquanto tucum é uma outra espécie de palmeira litorânea, de cujas folhas grandes se extraem fibras fortes que servem para feitura de cordas e redes de pesca ou de dormir. Mas, talvez, os nichos ecológicos locais mais atrativos para os índios Tupinambá estivessem nas praias da Armação e Ferradura, onde, respectivamente, encontravam carapaças de búzios grandes e pequenos empregados como buzinas de guerra ou de canoas e pingentes de brinco ou colar.

Há registro arqueológico sobre o uso do tronco da ibirapitanga - rebatizada de pau-brasil pelos portugueses no período histórico - como lenha preferencial das fogueiras que os índios mantinham sempre acesas dentro das malocas, da mesma forma que faziam os bandos nômades nos acampamentos pioneiros. Além do emprego de pau-brasil para fabricação dos grandes arcos de guerra, caça e pesca, há também registro documental sobre seu uso no tingimento vermelho de plumas e cordões, assim como da fina penugem que recobria parte do corpo nu dos guerreiros, durante a cerimônia de morte ritual de um inimigo capturado e depois devorado pelos habitantes da aldeia em festa. Os índios Tupinambá eram combatentes notáveis e vingativos que se deslocavam rapidamente em enormes canoas de guerra, impulsionadas por cerca de 40 remadores, capazes de navegar junto ao litoral até o território Goitacá no norte fluminense ou até o território Tupiniquim no norte paulista e logo marcharem léguas para atacar as povoações inimigas, com o único objetivo de fazer prisioneiros destinados à morte ritual e desafrontar as ofensas anteriores.

A organização social dos Tupinambá era formada pela confederação dos diversos grupos locais que reuniam número variável de aldeias vicinais. O centro de gravidade do sistema econômico repousava na autoprodução e alguma troca ocasional, o que colocava estes índios na dependência do meio natural circundante e traduzia-se socialmente na intensificação dos laços de solidariedade intragrupal e tribal. Consideravam que a terra sempre produz tudo para todos e a acumulação de bens era tabu. As regras relativas ao culto dos antepassados, ao matrimônio e à organização familiar obedeciam a um intrincado sistema de parentesco. As atividades eram exclusivamente masculinas ou femininas e ambas divididas por categorias de idade. Os indivíduos adultos podiam incorporar ou não os ideais de personalidade da sociedade Tupinambá - o bom chefe de família, o líder dos combates durante a incursão guerreira ou o grande feiticeiro com poder sobrenatural - ensinados desde a infância sem formas dolorosas de disciplina.

O conselho dos chefes constituía-se pelos indivíduos mais velhos e sábios dos grupos locais, responsáveis pelas relações com os grupos tribais circunvizinhos e inimigos (guerra), pela punição de ofensas e homicídios (retaliação) e pela reinterpretação dos antigos costumes à luz de importantes acontecimentos sociais. Embora se tratasse de mecanismo de dominação política e seus integrantes gozassem o privilégio de possuir numerosas mulheres, era também um poderoso organismo de conservação cultural e uma fonte permanente de atualização das tradições tribais, baseadas no lema Tupinambá de "viver e amar a vida". Segundo a interpretação de alguns antropólogos e historiadores, quando os portugueses chegaram ao litoral brasileiro, foram incapazes de conquistar a confederação dos grupos locais Tupinambá com a mesma rapidez que os espanhóis derrotaram as sociedades estratificadas astecas ou incas, depois do encarceramento ou assassinato dos respectivos imperadores dessas nações americanas. A escravização ou a morte violenta de alguns velhos sábios Tupinambá pelos portugueses pouco influa na organização social indígena, porque eram logo substituídos por indivíduos com crescente prestígio guerreiro ou religioso. Apenas, ao se defrontarem com forças militares muito superiores e serem derrotados à traição, os grupos remanescentes de Gecay optaram pela migração em busca da sobrevivência tribal longe da faixa litorânea sob o domínio dos conquistadores brancos.